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SBTi: metas de redução de emissões baseadas na ciência

11 hours ago
8 min read

Muitas empresas já divulgam uma meta climática. Reduzir 30% de emissões de gases de efeitos estufa até 2030, zerar emissões até 2050, tornar a operação de carbono neutra em alguma data específica. O problema é que nem toda meta divulgada foi construída com o mesmo rigor.


Definir um percentual e uma data é apenas um dos passos. A trajetória escolhida também precisa estar alinhada ao que a ciência do clima considera necessário. 


É aqui que entra a SBTi, ou Science Based Targets initiative, a referência mais utilizada hoje no mundo para transformar compromissos climáticos em metas tecnicamente estruturadas.


Neste artigo, vamos entender o que é a SBTi, o que caracteriza uma meta baseada na ciência e como esse processo se conecta ao inventário de GEE, aos escopos 1, 2 e 3 e ao plano de redução de emissões da sua empresa.


O que é a SBTi?


A Science Based Targets initiative (SBTi), ou Iniciativa de Metas Baseadas na Ciência, em tradução livre, reúne critérios, metodologias e padrões para que empresas definam metas de redução de emissões compatíveis com trajetórias climáticas reconhecidas cientificamente, como as do Acordo de Paris.


É importante dizer que a adesão à SBTi parte da própria empresa. Atualmente, a organização funciona como referência técnica, que:


  • Disponibiliza a metodologia;


  • Avalia se a meta submetida atende aos critérios do padrão vigente;


  • Quando aprovada, valida publicamente aquele compromisso como cientificamente embasado.


Isso significa que qualquer empresa pode usar a metodologia SBTi como referência interna, mesmo sem buscar uma validação formal. 


Significa também que a validação, quando acontece, carrega um peso, justamente por seguir um processo técnico reconhecido internacionalmente.


O que significa uma meta de redução baseada na ciência?


Em geral, uma meta baseada na ciência parte de uma pergunta específica: qual redução de emissões, no setor e no horizonte de tempo da empresa, é compatível com as trajetórias climáticas reconhecidas pela ciência?


A ideia é mudar a lógica de definição de metas: a empresa parte de trajetórias setoriais e globais de descarbonização e calcula, a partir delas, qual fatia da redução cabe à própria operação.


Esse cálculo considera não apenas o setor de atuação, mas o volume de emissões, o perfil dos escopos e, em alguns casos, metodologias específicas para determinados segmentos, como energia, transporte ou uso da terra.


Qual é a diferença entre uma meta interna e uma meta SBTi?


Na prática, existem três níveis de meta climática:


Tabela ilustrada das metas climáticas onde são validadas pela SBTi


Entender essa diferença ajuda a posicionar corretamente o que está sendo comunicado. Afinal, como vimos, usar a metodologia como referência é algo bem diferente de afirmar que a meta é validada pela SBTi.


Tudo começa com um inventário de GEE confiável


Antes de qualquer definição de meta, a empresa precisa saber o quanto emite, onde emite e em quais fontes. Esse é justamente o papel do Inventário de Gases de Efeito Estufa (GEE).


Sem um inventário estruturado, com governança de dados, fontes documentadas e ano-base consistente, a meta corre o risco de ser construída sobre uma base frágil.


A sequência costuma seguir esta ordem: inventário confiável, ano-base definido, escopos mapeados, fontes relevantes identificadas e, só então, meta estruturada.


Se sua empresa ainda está organizando esse processo, vale a leitura do nosso artigo sobre Governança de Dados no Inventário de GEE.


Como os escopos 1, 2 e 3 entram nas metas SBTi?


As metas SBTi são construídas sobre os três escopos do GHG Protocol:


  • Escopo 1: emissões diretas, geradas por fontes que a empresa controla, como combustão de frota própria ou processos industriais;


  • Escopo 2: emissões indiretas da energia elétrica ou térmica adquirida pela empresa;


  • Escopo 3: emissões indiretas ao longo da cadeia de valor, como fornecedores, logística terceirizada, viagens corporativas e uso dos produtos vendidos.


Na versão do padrão atualmente aplicável à validação em 2026, o Corporate Net-Zero Standard V1.3.1, as regras de cobertura são as seguintes:



Tabela de comparação de antes e depois da SBTi

Importante: esses percentuais estão sempre sujeitos a mudanças. Por isso, antes de estruturar sua meta, confirme os critérios vigentes diretamente nas fontes oficiais da SBTi.


Metas de curto prazo e metas Net Zero: qual é a diferença?


As metas de curto prazo (também conhecidas como near-term targets) cobrem um horizonte de cinco a dez anos e orientam as ações mais próximas da operação, aquelas que entram no plano de redução dos próximos ciclos orçamentários.


Já as metas Net Zero têm horizonte mais longo, geralmente até 2050, e envolvem reduzir profundamente as emissões antes de neutralizar apenas o que restar como emissão residual, por meio de mecanismos de remoção reconhecidos.


Por fim, as metas intermediárias sustentam, ano após ano, a trajetória até o Net Zero. Sem cumpri-las, a meta de longo prazo perde credibilidade diante de clientes, investidores e auditores.


Como a empresa define o seu nível de ambição?


O nível de ambição de uma meta SBTi decorre da metodologia aplicada ao perfil da empresa: setor de atuação, distribuição de emissões entre escopos e, quando existir, um caminho setorial específico.


Hoje, a SBTi disponibiliza metodologias cross-sector, aplicáveis à maioria das empresas, e metodologias sector-specific, voltadas a setores com perfis de emissão particulares, como energia, transporte, alimentos, construção e uso da terra. 


A escolha da metodologia correta influencia diretamente o cálculo da sua meta.


Como escolher ano-base e ano-meta?


O ano-base é o ponto de partida contra o qual toda a redução será medida. Para funcionar, ele precisa refletir dados confiáveis, representar a operação normal da empresa e permitir comparação consistente ao longo dos anos.


Já aprofundamos esse processo no artigo sobre plano de redução de emissões. Mas, em resumo, a escolha do ano-base e do horizonte da meta depende de fatores como:


  • Qualidade dos dados disponíveis;


  • Representatividade daquele período;


  • Definição de marcos intermediários que permitam acompanhar o progresso, e não apenas o resultado final.


E o escopo 3?


Para a maioria das empresas, o escopo 3 é o ponto mais desafiador de uma meta SBTi. 


Isso porque ele reúne emissões fora do controle operacional direto: fornecedores, bens e serviços adquiridos, transporte terceirizado, viagens corporativas, uso dos produtos vendidos, entre outras categorias.


Esse trabalho exige uma abordagem diferente da usada nos escopos 1 e 2. Envolve engajar fornecedores, revisar critérios de compra, coletar dados de terceiros e conviver com estimativas enquanto a qualidade dos dados da cadeia evolui.


Empresas com um inventário maduro nos escopos 1 e 2, mas pouca estrutura no escopo 3, costumam levar mais tempo nessa etapa do que previam ao começar o processo.


Da meta para o plano de redução


Com a meta validada, é hora de definir a ambição e o horizonte. O plano de redução estruturado é o que transforma esse compromisso em toneladas de CO₂ efetivamente reduzidas.


Cada iniciativa desse plano precisa ter um potencial de redução estimado, um responsável definido, o prazo esperado, a viabilidade técnica e financeira avaliada, possíveis dependências mapeadas e um ou mais indicadores que permitam acompanhar o andamento.


Nesse ponto, a meta climática passa a orientar decisões de orçamento, operação e investimento. Para aprofundar essa etapa, veja nosso artigo sobre como priorizar ações em um plano de redução de emissões.


Como acompanhar o progresso?


Definir a meta e montar o plano resolve apenas parte do trabalho. O acompanhamento contínuo é o que evita que a empresa descubra, anos depois, que está fora da trajetória esperada. 


Alguns elementos sustentam esse acompanhamento:


  • Inventário de GEE atualizado periodicamente;


  • Comparação entre emissões reais e trajetória planejada;


  • Indicadores de progresso por iniciativa e por escopo;


  • Revisão de prioridades quando alguma ação não avança como previsto;


  • Prestação de contas interna, para que a meta não fique restrita à área de sustentabilidade.



O que mudou com o Corporate Net-Zero Standard V2.0?


Em 11 de junho de 2026, a SBTi publicou o Corporate Net-Zero Standard V2.0, a revisão mais significativa do padrão desde seu lançamento. 


Na prática, a V2.0 dá mais peso à comprovação contínua: a empresa passa a demonstrar, periodicamente, que está implementando o que prometeu.


Entre as principais mudanças, estão:


  • Duas categorias de empresas (A e B), definidas por porte, faturamento, localização e volume de emissões, com obrigações proporcionais a cada categoria;


  • As metas de escopo 1 e escopo 2 passam a ser definidas separadamente, cada uma cobrindo 100% do respectivo escopo;


  • O plano de transição climática, avaliação periódica de progresso e, para empresas da categoria A, asseguração externa do inventário passam a integrar o próprio padrão.


Sobre o cronograma


  • Em 2026, a validação de novas metas segue pela V1.3.1;


  • A partir de 1º de fevereiro de 2027, a SBTi passa a aceitar submissões tanto pela V1.3.1 quanto pela V2.0, período de convivência que vai até 31 de janeiro de 2028;


  • A partir de 1º de fevereiro de 2028, todas as novas submissões precisam seguir a V2.0.


Como esse cronograma e os critérios técnicos ainda podem receber ajustes durante a transição, confirme as regras vigentes nas fontes oficiais da SBTi antes de estruturar ou submeter uma meta.


Principais erros ao estruturar metas baseadas na ciência


O alinhamento do compromisso climático aos critérios da ciência exige precisão metodológica e vai muito além de apenas definir um número a ser alcançado. 


A seguir, listamos alguns dos equívocos mais comuns que podem comprometer a validação e a eficácia da sua estratégia de descarbonização:


  • Definir a meta antes de ter um inventário robusto;


  • Deixar o escopo 3 de fora, mesmo quando ele representa uma parte relevante das suas emissões;


  • Escolher um percentual de redução sem uma base metodológica;


  • Não estabelecer marcos intermediários ao longo da trajetória;


  • Tratar a validação como ponto final, sem um acompanhamento contínuo do progresso;


  • Manter a meta desconectada do seu orçamento e da realidade da sua operação;


  • Não acompanhar a evolução real das suas emissões frente ao que foi planejado.



imagem ilustrativa de um computador onde mostra o gráfico de desempenho com a SBTi

Como a Descarbonize pode apoiar


A Descarbonize combina o software Net Zero com uma equipe de consultoria especializada para apoiar cada etapa desse processo: 


  • Estruturação do inventário de GEE;


  • Organização de escopos e fontes de emissão;


  • Definição de metas alinhadas a metodologias reconhecidas;


  • Construção do plano de redução que coloca essa meta em movimento.


Ajudamos você a comparar cenários, acompanhar indicadores de progresso e revisar suas prioridades à medida que novos dados chegam, mantendo a trajetória da empresa visível ao longo de todo o tempo.


Com isso, você resolve a partir de preparação, estruturação de dados e execução do plano de redução. A validação formal de uma meta segue sendo conduzida diretamente pela SBTi, como processo próprio da iniciativa.


Conclusão


Como vimos, uma meta baseada na ciência começa no inventário de GEE, mas só se torna real quando é traduzida em um plano de redução com iniciativas, responsáveis e indicadores.


A meta baseada na ciência ganha valor quando orienta decisões reais de redução, ano após ano.


Se a sua empresa já conhece suas emissões, mas ainda precisa transformar os dados em uma meta e um plano de redução consistentes, conheça a solução de Plano para Redução de CO2 da Descarbonize.


Perguntas Frequentes (FAQ)


O que é SBTi?


É a Science Based Targets initiative, uma organização que fornece metodologias e critérios para que empresas definam e, se desejarem, validem metas de redução de emissões alinhadas a trajetórias climáticas reconhecidas pela ciência.


O que são metas baseadas na ciência?


São metas de redução calculadas a partir de trajetórias setoriais e globais de descarbonização, compatíveis com os objetivos do Acordo de Paris.


A SBTi é obrigatória?


Não, a adesão é voluntária. Ainda assim, clientes, investidores ou mercados específicos podem solicitar evidências de metas estruturadas ou validadas.


Qual a diferença entre meta SBTi e meta Net Zero?


A meta SBTi pode incluir tanto compromissos de curto prazo quanto a trajetória Net Zero. O Net Zero é o horizonte de longo prazo, geralmente até 2050, dentro da estrutura de metas da SBTi.


Quais escopos precisam entrar em uma meta SBTi?


Escopos 1 e 2 sempre entram na meta. O escopo 3 se torna obrigatório quando representa uma parcela relevante das emissões totais, conforme os critérios do padrão vigente.


Quando o escopo 3 precisa ser incluído?


Na versão atualmente aplicável à validação (V1.3.1), quando o escopo 3 representa 40% ou mais das emissões totais. Esse critério pode mudar com a transição para a V2.0, por isso vale confirmar a regra vigente no momento da definição da meta.


Preciso ter o inventário de GEE antes de definir uma meta?


Sim. O inventário é a base que permite calcular ano-base, distribuição por escopo e fontes relevantes.



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